DELICADEZA
(Tierry Motta)

Por assim dizer
não amo você
e nem poderia me obrigar

O universo inteiro pra amar
bem, não dá
Era preciso ter maior visão

Cuide bem, não perca o coração
A gente ainda vai aprender
a se entregar, a não dizer não
pra noite depois da noite

A gente, a gente
que vaga luz
o esplendor, a escuridão
Não imagino nenhum amor
num mundo que não se aceite

Eu posso te amar
na delicadeza
de me afastar
sem virar a mesa
Te peço perdão
pra deixar acesa
a chama do adeus
no fim da pureza


A guerra, de Otto Dix

Como assim esse medo
de que a guerra comece agora?
- A guerra já começou! — devo avisar meus amigos
que a maior guerra está aí de velhas datas
vive mesmo tão perto
tão dentro por vezes, a nossa cara
esganando na gente
a inimiga desolação das mentiras
as ex-caras avessas, a lebre

Logo adormecem o seu medo
(o enforcado ouve e assente)
adentram um novo mundo de sonho
sem pomba alvissareira
sem norte ou caravela:
não viram chegar a guerra
arder a guerra que mora neles
castigar nossa inocência cúmplice
nossa morna ingratidão imbele

Nutrindo-a do sangue de notícias…


Crepúsculo em Veneza, de Claude Monet

Não, a poesia se move além do cansaço narrativo
A percepção se embota, as notícias perdem o ralo fio de meada
o arbítrio há muito questiona a normalidade
as semanas parecem dias adiando fins de meses
e a ânsia sufocada, um verão que agoniza
Tranquilamente, fito a íntima suspeição da comédia
quando versos tentam compor maior sentido

As míticas jornadas de tanta gente já vivida
tudo o que ainda haverão por bem contar
histórias, imitações, fábulas, o fingimento
fatalmente tudo se presentifica, reflexo de devires
por vezes, me pesa como um cansaço de saber
Engano ou sintoma da impotência de quem descai…


(Música e letra: Tierry Motta)
No país de merda que eu amo
a flor da idade, o engano
cego é o espelho da sorte
refletindo tudo num corte
curte os estilos da moda
qualquer coisa fútil mas foda
basta pra saber que o sexo
dá à vida ainda algum nexo

Captam seus gigas de dados
olhos vidrados
são os visores
servos atores
(de quais senhores?)
e as massas são partes
disfarces de prontas opiniões
dissoluções
caindo em si
- será?

Dance quem quer dançar
Não lhe resta somente gozar
mas é isso o que vem me pedir
Fomos nós os palhaços a rir
no desfile das trevas com seus fuzis
e acreditar que o meu país tão só
já não perde pro mundo


Vésperas ante Héspera
a retrospectiva
quase o remorso da ida
turvam a face às memórias
fotografam o cariz vestigial
vale da nossa erosão.
Não se trata sempre de escavar arestas
de inaugurar não-lugares
perfazer os futuros pretéritos
não obstante a Parca certeza.
Contrastamos gradações
nas refrações fortuitas de agora
ajustamos o norte de nosso rumo cego
pesamos um sul, saudade agonia
sem meia garantia dos bons sucessos.
Perante o vale, porém à nossa erosão
morada minerária
no que batemos água
trata-se um quando também de dar o melhor
ao que imprevisto nos cobra
quebrar a moleza nos peraus da injustiça
tomando golpe aos transvios
religiosamente
minar ervas ressentidas
sobre atrás
neste bruto contratempo.

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Impressão, nascer do sol, de Claude Monet

O mar chamou incansável
no fundo dos meus olhos
não vê-lo:
velados por qual rumor de crista?

Ouvi o sono agitado
me abrir em praias
desvelo
até dos olhos vazar — mar à vista!

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foto: @tierrymotta

o sol
a casa

ocaso
a sol

recol
lh’a asa

a hora
transvaza

sangrando
arrebol

lençol
de gaza

na noite
atol

laguna
rasa

sulcando
abrasa

só raios

sem sol

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Baudelaire em 1844, de Émile Deroy

posso não vir a ser
o poeta que mamãe pediu
quiçá poeta nenhum
que valha o que se desvale
não burila sua dor

despreze os monumentos
as láureas poeirada poesia
poete a espécie extinta
na cadeia alimentar dos discursos
roendo o osso às metáforas

num quando manco da infância
foi que vaziamente caí
porém sobretudo o que for
que eu digo um buraco pra cima
me anima a tristeza de então

os malditos não tardaram
não me creditaram promessa
salvo a doença do peito
salvo a tormenta na testa
- serve pra encosto…

poeta é foda

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A tempestade, também conhecida como Naufrágio, de E. Isabey

ii
de última hora

esplendor da ilha
maresias na Joaquina
dedos de vento no chão do Campeche
areal das velhas horas rendidas

à luz na chuva ou no azul
à sombra de ausência e vigília
parado em longe
despedida

sem saltar o mergulho mar da fantasia
sentado à beira da fúria do movimento
estou perto do coração
renegado da mentira
sem armadura ou timoneiro

nunca tive a chave dos símbolos
poentes no tempo antes que eu naufragasse aqui
só um rei para honrar
vivo morto na glória
entre conchas partidas

coberto de grãos na idade da vida
absorvo as reminiscências
do sul…


As duas irmãs (1889), de A. Renoir

1 — em cavalgadas nós
2 — eu te elejo for
1 — se o que quando
2 — labirinto em que me ouço

1 — dolorosa quando escura
2 — voz clara quando sara
1 — senão quando trunca
2 — o ar de nossa entre

1–2 — aberta seara

1 — o ar de teu meu
2 — tu eu que outrara
1 — eu tu de outra minha
2 — contemplação não lavrada

1 — de mim outra inveja
2 — de ti mesma eu sabia
1 — enchia essa taça orelhas
2 — mas transbordavas co’a…

Tierry Motta

é poeta, cantor, compositor e revisor de textos. Está em busca da busca do que é de buscar e o ego refrata em horror. Instagram: @tierrymotta

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